VERTIGEM, A ASSUSTADORA TONTURA QUE TUDO GIRA
Vertigem posicional: entenda VPPB, causas, diagnóstico e tratamento com manobras 🌀👂

Acordar no meio da noite sentindo quarto girar ao virar na cama assusta qualquer pessoa. Primeiramente, essa sensação rotatória intensa que surge com movimentos específicos da cabeça caracteriza condição médica específica e tratável. Principalmente porque vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) é causa mais comum de tontura rotatória no mundo.
Responsável por 20-30% de todas as queixas vestibulares, essa condição pode ser muito assustadora. Entretanto, apesar de incapacitante durante episódios, é condição “benigna” no sentido de não indicar tumor cerebral. Ou seja, não representa AVC ou doença grave. Consequentemente, compreender mecanismo e reconhecer sintomas característicos é fundamental. Além disso, conhecer tratamento simples e eficaz com manobras transforma experiência aterrorizante em problema resolvível em poucos minutos no consultório médico.
🔬 O que é VPPB: definição e fisiopatologia
Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) é doença do labirinto (orelha interna) que gera períodos rápidos de tontura rotatória quando cabeça é movimentada em algumas posições. Principalmente mecanismo envolve cristais de carbonato de cálcio (otólitos) que se deslocam dentro dos canais semicirculares:
Anatomia do sistema vestibular (equilíbrio):
Sistema vestibular possui estrutura complexa que detecta movimentos:
- Labirinto posterior (orelha interna): órgão do equilíbrio localizado no osso temporal. Principalmente estrutura complexa de canais preenchidos com líquido (endolinfa)
- Três canais semicirculares: em cada orelha – anterior (superior), posterior e lateral (horizontal). Ou seja, dispostos perpendicularmente detectando rotações da cabeça nos três planos espaciais
- Órgãos otolíticos: utrículo e sáculo. Assim, detectam acelerações lineares e posição da cabeça em relação à gravidade
- Células ciliadas: receptores sensoriais dentro dos canais. Principalmente cílios mergulhados em cúpula gelatinosa que se move com fluxo da endolinfa
- Nervo vestibular: transmite informações do labirinto para tronco encefálico e cerebelo. Consequentemente, integradas com visão e propriocepção para manter equilíbrio
Otólitos (otocônias) – cristais do equilíbrio:
- Composição: cristais microscópicos de carbonato de cálcio (CaCO3) embebidos em matriz protéica
- Localização normal: aderidos à membrana otolítica no utrículo e sáculo
- Função fisiológica: sua massa aumenta inércia da membrana otolítica permitindo detecção de acelerações lineares (frear carro, elevador subindo/descendo)
- Tamanho: 3-30 micrômetros – aproximadamente 1/3 do diâmetro de fio de cabelo humano
- Densidade: ~2.7 vezes mais densos que endolinfa circundante
Fisiopatologia da VPPB – teoria da canalitiase:
Deslocamento dos otólitos:
- Desprendimento: por razões diversas (trauma, envelhecimento, infecção viral, isquemia), otólitos se desprendem da membrana otolítica do utrículo
- Migração para canal: otólitos livres flutuam e migram para dentro de um dos canais semicirculares – 85-95% das vezes para canal posterior (anatomia favorece por ser mais dependente gravitacionalmente)
- Partículas livres flutuando: otólitos movem-se dentro do canal semicircular com mudanças de posição da cabeça
Como vertigem é gerada:
- Movimento da cabeça: ao mover cabeça para posição crítica, gravidade puxa otólitos através do canal. Primeiramente geralmente deitar/virar na cama ou olhar para cima
- Fluxo anormal de endolinfa: movimento dos otólitos pesados desloca endolinfa. Assim, cria fluxo anormal dentro do canal
- Estimulação inapropriada: fluxo de endolinfa deflete cúpula. Consequentemente, estimula células ciliadas mesmo sem rotação real da cabeça
- Informação conflitante: labirinto afetado sinaliza rotação. Entretanto, outro labirinto (sadio) e visão indicam ausência de movimento. Ou seja, conflito sensorial gera vertigem intensa
- Nistagmo: estimulação vestibular assimétrica causa movimentos oculares involuntários. Principalmente movimentos rotatórios (nistagmo) observáveis durante crise
Autolimitação dos sintomas:
- Otólitos param de se mover: após 10-60 segundos, otólitos param de fluir (gravidade os deposita em ponto mais baixo do canal)
- Endolinfa estabiliza: sem movimento de otólitos, fluxo de endolinfa cessa
- Vertigem resolve: sintomas desaparecem rapidamente mas sensação de desequilíbrio/náusea pode persistir minutos/horas
- Reprodutível: retornar à mesma posição gatilho reproduz episódio – característica diagnóstica importante
Consequentemente, VPPB resulta de “pedrinhas” deslocadas dentro do sistema do equilíbrio criando estímulo falso de rotação. Assim, não há nenhuma lesão estrutural grave – apenas otólitos em local errado gerando sintomas dramáticos.
📊 Epidemiologia: quem é afetado por VPPB
VPPB é causa vestibular mais comum de tontura/vertigem:
Prevalência e incidência:
- Prevalência de vida: 2.4% da população geral terá VPPB em algum momento da vida
- Incidência anual: 64 casos/100.000 habitantes/ano – aumenta com idade
- Entre tonturas vestibulares: 17-25% de todos os casos de vertigem são VPPB
- Atendimentos de emergência: segunda causa mais comum de tontura em pronto-socorro (após síndrome vestibular aguda)
Distribuição por idade:
- Pico de incidência: 50-70 anos – rara antes dos 35 anos
- Crianças: muito rara (<5% dos casos) – geralmente pós-traumática
- Envelhecimento: incidência aumenta progressivamente com idade – degeneração da membrana otolítica, redução de proteínas de ancoragem dos otólitos, microtraumatismos cumulativos
- Idosos: prevalência pode atingir 9% em >80 anos – contribui significativamente para quedas nessa faixa etária
Distribuição por gênero:
- Mulheres: 2-3x mais afetadas que homens – razão não completamente compreendida
- Hipóteses: alterações hormonais (especialmente menopausa afeta metabolismo de cálcio), osteoporose mais prevalente (degeneração otolítica relacionada?), maior procura por atendimento médico
Canal semicircular afetado:
- Canal posterior: 85-95% dos casos – anatomia mais dependente facilita deposição gravitacional de otólitos
- Canal lateral (horizontal): 5-15% dos casos – sintomas diferentes (nistagmo horizontal, menos intenso)
- Canal anterior: <1-2% dos casos – muito raro (anatomia mais superior dificulta entrada de otólitos)
- Múltiplos canais: 6-10% têm mais de um canal afetado simultaneamente
🎯 Causas e fatores de risco para VPPB
Na maioria dos casos (50-70%) VPPB é idiopática (sem causa identificável). Entretanto, múltiplos fatores podem precipitar desprendimento de otólitos:
Causas identificáveis:
1. Trauma craniano:
- Mais comum causa secundária: 7-17% dos casos de VPPB são pós-traumáticos
- Mecanismo: impacto desloca otólitos mecanicamente. Além disso, hemorragia labiríntica causa degeneração de membrana otolítica
- Latência: pode aparecer dias/semanas após trauma. Principalmente quando sangue/debris são reabsorvidos
- Gravidade variável: desde queda leve batendo cabeça até acidentes graves
- Whiplash: acidentes de carro com chicoteamento cervical podem causar VPPB. Ou seja, mesmo sem impacto direto na cabeça
2. Labirintite/neurite vestibular prévia:
- Infecções virais: após neurite vestibular aguda, 10-15% desenvolvem VPPB nas semanas seguintes
- Mecanismo: inflamação viral danifica membrana otolítica causando desprendimento de otólitos quando inflamação resolve
- VPPB secundária: aparece durante recuperação da neurite – pode confundir quadro clínico
3. Doença de Ménière:
- Associação: 30-50% dos pacientes com Ménière desenvolvem VPPB em algum momento
- Mecanismo: hidropisia endolinfática (acúmulo de líquido) danifica estruturas otolíticas
- Complicação diagnóstica: VPPB sobreposta pode confundir quadro de Ménière
4. Enxaqueca vestibular:
- Comorbidade: pacientes com enxaqueca têm 3x mais risco de VPPB
- Mecanismo: vasoespasmo durante crise de enxaqueca pode causar isquemia transitória do labirinto
5. Cirurgia otológica prévia:
- Estapedectomia: cirurgia para otosclerose tem 5-7% de risco de VPPB pós-operatória
- Outras cirurgias: mastoidectomia, timpanoplastia – trauma vibratório da broca pode deslocar otólitos
6. Repouso prolongado no leito:
- Hospitalização prolongada: pacientes acamados têm risco aumentado
- Mecanismo: ausência de movimentos da cabeça altera fluxo de endolinfa e pode facilitar deslocamento de otólitos degenerados
- Pós-cirúrgico: após cirurgias não-otológicas com repouso prolongado
7. Osteoporose/deficiência de vitamina D:
- Associação epidemiológica: pacientes com osteoporose têm maior prevalência de VPPB
- Hipótese: metabolismo anormal de cálcio pode afetar qualidade/estabilidade dos otólitos
- Vitamina D baixa: alguns estudos mostram níveis reduzidos em pacientes com VPPB recorrente
- Suplementação: dados conflitantes sobre benefício de suplementar vitamina D para prevenção
Fatores de risco:
- Idade avançada: maior fator de risco – degeneração otolítica relacionada ao envelhecimento
- Sexo feminino: 2-3x mais comum
- Hipertensão arterial: microisquemia labiríntica crônica?
- Diabetes mellitus: neuropatia vestibular periférica
- Hipercolesterolemia: doença microvascular
- Sedentarismo: falta de movimentos variados da cabeça
- História familiar: possível componente genético (qualidade da membrana otolítica)
😵 Sintomas: como VPPB se manifesta
É bastante comum levar a sintomas em posições específicas e duração característica:
Sintoma cardinal – vertigem rotatória posicional:
Essa sensação de tontura em que há sensação de movimento rotatório, chamada de vertigem:
- Característica da vertigem: sensação clara de rotação – “quarto girando”, “tudo rodando”, “carrossel” – não é apenas desequilíbrio ou tontura vaga
- Início súbito: começa abruptamente 1-5 segundos após atingir posição gatilho
- Intensidade: pode ser extremamente intensa – pacientes frequentemente agarram-se à cama/cadeira com medo de cair
- Direção: geralmente rotatória mas pode ter componente vertical (para cima/baixo)
Geralmente dura alguns segundos até minutos:
- Duração típica: 10-60 segundos para cada episódio – raramente >1-2 minutos
- Autolimitada: resolve espontaneamente mesmo mantendo posição – quando otólitos param de se mover
- Fadiga: se repetir manobra gatilho múltiplas vezes seguidas, intensidade diminui (fadiga vestibular) – mas retorna após repouso
Posições gatilho características:
Bastante comum levar a sintomas na posição deitada, quando se vira na cama, e olhando para cima ou para baixo (extensão e flexão do pescoço):
Posição deitada:
- Deitar na cama: especialmente ao deitar rapidamente – posição crítica mais comum
- Lado afetado: vertigem geralmente piora deitando sobre lado do ouvido acometido
- Acordar durante noite: pacientes frequentemente relatam acordar com vertigem intensa ao virar na cama dormindo
- Evitação: após primeira crise, pacientes evitam conscientemente deitar sobre lado afetado
Virar na cama:
- Rolar de um lado para outro: movimento rotacional da cabeça em relação ao corpo
- Bilateral: pode ocorrer virando para qualquer lado mas geralmente pior para lado afetado
- Impacto no sono: medo de virar durante sono causa insônia e ansiedade
Olhar para cima (extensão cervical):
- Pegar objeto em prateleira alta: alcançar armário superior
- Trocar lâmpada: olhar para o teto
- Salão de cabeleireiro: lavar cabelo na pia com cabeça para trás – “tontura do cabeleireiro”
- Pintar teto: atividades profissionais que requerem extensão cervical prolongada
- Olhar estrelas: deitar no gramado olhando para céu
Olhar para baixo (flexão cervical):
- Amarrar sapatos: abaixar-se para amarrar cadarço
- Pegar objeto no chão: especialmente se movimento for rápido
- Jardinagem: cuidar de plantas baixas
- Dentista: inclinar cabeça para frente na cadeira odontológica
Outras posições gatilho:
- Levantar da cama: sentar-se rapidamente após estar deitado
- Sair do carro: movimento de rotação + flexão ao sair do veículo
- Prática de yoga/pilates: posições específicas (cachorro olhando para baixo, etc)
- Natação: viradas na piscina, mergulho
Sintomas associados:
Muitas vezes causa mal estar como náuseas, vômitos e sensação de pressão baixa:
- Náusea: 60-80% dos pacientes – intensidade varia de leve desconforto a náusea severa
- Vômitos: 20-30% – geralmente se episódios são muito intensos ou repetidos
- Palidez: ativação vagal durante vertigem
- Sudorese fria: resposta autonômica ao conflito sensorial
- Sensação de desmaio iminente: embora desmaio verdadeiro seja raro em VPPB pura
Muito comum sensação de cabeça vazia, cabeça pesada, desequilíbrio associados:
- Entre episódios: mesmo sem vertigem rotatória ativa, persiste sensação de instabilidade
- Cabeça “leve” ou “oca”: sensação de flutuação, não-vertigem verdadeira
- Cabeça “pesada”: sensação de peso, dificuldade de sustentar cabeça ereta
- Desequilíbrio: insegurança ao caminhar especialmente em ambientes escuros ou superfícies irregulares
- Duração: pode persistir horas após episódio de vertigem resolver
Sintomas que NÃO fazem parte de VPPB típica:
Presença sugere outro diagnóstico:
- Perda auditiva: VPPB não causa surdez – se presente, considerar Ménière, labirintite, neurinoma
- Zumbido: geralmente ausente em VPPB pura
- Plenitude auricular: sensação de ouvido entupido não é característica
- Vertigem contínua >2-3 minutos: VPPB é autolimitada – vertigem prolongada sugere neurite, AVC cerebelar
- Sintomas neurológicos: diplopia (visão dupla), disartria (fala arrastada), fraqueza/dormência, ataxia severa – sinais centrais que exigem investigação urgente para AVC
- Cefaleia intensa: pode ocorrer náusea mas cefaleia severa não é característica (exceto se enxaqueca associada)
🔍 Diagnóstico: manobras específicas identificam VPPB
Diagnóstico de VPPB é eminentemente clínico baseado em história característica e teste provocativo:
História clínica detalhada:
- Características da vertigem: rotatória vs desequilíbrio vago, duração, frequência
- Gatilhos posicionais: deitar, virar na cama, olhar para cima/baixo
- Início dos sintomas: súbito vs gradual, trauma prévio, infecção recente
- Sintomas auditivos: perda auditiva, zumbido, plenitude (se presentes, considerar outros diagnósticos)
- Fatores de risco: idade, trauma, cirurgias prévias, Ménière
- Impacto funcional: quedas, evitação de atividades, insônia
Manobra de Dix-Hallpike – teste diagnóstico padrão-ouro:
Objetivo principal: reproduzir sintomas movimentando otólitos dentro do canal posterior
Técnica de execução:
- Posição inicial: paciente sentado na maca. Primeiramente cabeça rodada 45° para lado a ser testado
- Movimento: médico deita paciente rapidamente mantendo rotação de 45°. Assim, cabeça fica pendente ~30° abaixo da horizontal (hiperextensão)
- Observação: manter posição por 30-60 segundos. Principalmente observando olhos do paciente
- Retorno: sentar paciente novamente e observar
- Lado contralateral: repetir teste. Consequentemente, com cabeça rodada para outro lado
Resultado positivo – confirma VPPB de canal posterior:
- Latência: 1-5 segundos após atingir posição deitada, sintomas começam
- Vertigem rotatória: paciente relata tontura intensa – “mesma sensação que sente em casa”
- Nistagmo: movimento ocular involuntário observável – rotatório (torsional) batendo para cima em direção à testa no olho inferior, direção típica para VPPB de canal posterior
- Duração: nistagmo/vertigem duram 10-60 segundos e resolvem espontaneamente
- Fadiga: se repetir imediatamente, resposta diminui
- Reversão: ao sentar paciente, nistagmo pode reverter direção brevemente
Teste é considerado positivo quando:
- Reproduz vertigem rotatória característica E
- Provoca nistagmo típico (rotatório para cima)
Teste do rolo (Roll test) – para VPPB de canal lateral:
- Técnica: paciente deitado supino, cabeça elevada 20°, roda cabeça 90° rapidamente para um lado e depois para o outro
- Positivo: nistagmo horizontal intenso quando cabeça roda para lado afetado
- Indicação: quando Dix-Hallpike negativo mas história sugere VPPB
Exames complementares – geralmente desnecessários:
- VPPB é diagnóstico clínico: história + manobra de Dix-Hallpike são suficientes – não requer exames de imagem ou laboratoriais
- Ressonância magnética (RM) de crânio: indicada APENAS se sinais de alerta (sintomas neurológicos, vertigem >2-3 minutos, perda auditiva, cefaleia intensa) para excluir AVC cerebelar, tumor de ângulo pontocerebelar
- Audiometria/impedanciometria: se sintomas auditivos associados para investigar Ménière, neurinoma, perda auditiva
- Videonistagmografia (VNG): teste vestibular completo – reservado para casos atípicos, refratários ou quando múltiplas patologias vestibulares
- Exames laboratoriais: não há exame de sangue para VPPB – dosagem de vitamina D pode ser considerada em casos recorrentes
💊 Tratamento: manobras de reposicionamento canalicular
Tratamento de VPPB é mecânico (não medicamentoso) – objetivo é reposicionar otólitos deslocados de volta ao utrículo:
Manobra de Epley – tratamento padrão para VPPB de canal posterior:
Taxa de sucesso impressionante: 80-90% com uma única manobra. Além disso, >95% com 2-3 manobras
Princípio do tratamento:
- Movimentos sequenciais da cabeça: giram canal semicircular posterior. Assim, otólitos migrem pela gravidade através do canal. Consequentemente, são depositados de volta no utrículo
- Duração: aproximadamente 5-10 minutos para sequência completa
- Procedimento ambulatorial: realizada no consultório médico. Ou seja, paciente retorna para casa logo após
Técnica (orelha direita afetada como exemplo):
- Passo 1: Dix-Hallpike para direita (posição provocativa) – mantém 1-2 minutos até nistagmo cessar completamente
- Passo 2: Mantendo cabeça estendida, roda cabeça 90° para esquerda – mantém 1-2 minutos
- Passo 3: Rola corpo inteiro para decúbito lateral esquerdo (nariz apontando para chão 45°) – mantém 1-2 minutos
- Passo 4: Senta paciente lentamente mantendo cabeça inclinada para baixo – mantém sentado 1-2 minutos
Durante manobra:
- Vertigem pode ser reproduzida: especialmente no primeiro movimento – paciente deve ser avisado
- Olhos abertos: médico observa nistagmo que confirma movimento dos otólitos
- Movimentos lentos mas deliberados: entre posições – pausa em cada posição para otólitos migrarem
Após manobra de Epley – cuidados pós-tratamento:
- Restrições controversas: tradicionalmente recomendava-se evitar deitar por 48h e usar colar cervical – estudos recentes mostram que NÃO é necessário
- Movimentos livres: paciente pode retornar atividades normais imediatamente
- Evitar posição gatilho: nas primeiras 24-48h, evitar movimentos bruscos que desencadeavam sintomas
- Verificação: alguns médicos repetem Dix-Hallpike após manobra para confirmar sucesso – teste deve ser negativo
Manobra de Semont (liberatória) – alternativa para canal posterior:
- Técnica diferente: movimentos mais bruscos e rápidos
- Eficácia similar: ~80-90% de sucesso
- Menos utilizada: requer mais força física do médico, mais desconfortável para paciente
Manobra de Gufoni/BBQ roll – para VPPB de canal lateral:
- Indicação: canal lateral afetado (menos comum)
- Técnica: rotações sequenciais de 90° enquanto deitado
- Eficácia: 70-90% dependendo se canalitiase vs cupulolitiase
Exercícios de Brandt-Daroff – autotratamento domiciliar:
Quando usar:
- Impossível consultar médico: áreas remotas sem acesso a otorrino
- VPPB recorrente: paciente conhece manobras e pode fazê-las sozinho
- Complemento: após manobra de Epley para acelerar compensação vestibular
Técnica:
- Repetições: sentar → deitar lado direito 30seg → sentar → deitar lado esquerdo 30seg → sentar
- Frequência: 3 séries de 5 repetições, 2-3x/dia
- Duração: continuar por 2 semanas
- Eficácia: menor que Epley (50-70%) mas útil quando Epley não disponível
Medicações – papel limitado:
- Antieméticos: dimenidrinato, ondansetrona – controlam náusea durante crise mas NÃO tratam VPPB
- Supressores vestibulares: meclizina, diazepam – podem aliviar sintomas temporariamente mas ATRASAM compensação vestibular
- Não recomendado uso crônico: medicações devem ser evitadas exceto para alívio agudo de náusea severa
- Não substituem manobras: medicação sozinha não resolve VPPB – manobras de reposicionamento são tratamento definitivo
Cirurgia – raramente necessária:
- Oclusão de canal posterior: procedimento cirúrgico que bloqueia canal afetado
- Indicação: VPPB intratável refratária a múltiplas manobras (extremamente raro <1%)
- Risco: perda auditiva (10-30%), complicações cirúrgicas
- Última opção: apenas após falha de todos tratamentos conservadores
🔄 Prognóstico e recorrência
Prognóstico geral – excelente:
- Resolução espontânea: 50% dos casos resolvem sem tratamento em 1-3 meses. Principalmente porque otólitos eventualmente se dissolvem ou se reabsorvem
- Com tratamento (Epley): 80-90% curam com 1-2 manobras. Ou seja, em consulta única
- Sem sequelas: VPPB tratada não deixa déficit permanente. Consequentemente, função vestibular retorna completamente ao normal
- Qualidade de vida: após tratamento bem-sucedido, retorno completo. Assim, atividades normais restauradas
Recorrência – comum mas tratável:
- Taxa de recorrência: 15% no primeiro ano, 37% em 5 anos
- Fatores de risco para recorrência: idade >65 anos, trauma craniano como causa inicial, Ménière associada, osteoporose, deficiência de vitamina D
- Mesmo tratamento eficaz: episódios recorrentes respondem igualmente bem à manobra de Epley
- Prevenção: não há método comprovado para prevenir recorrência – suplementação de vitamina D tem evidência fraca
- Autotratamento: pacientes com múltiplas recorrências podem aprender exercícios de Brandt-Daroff para fazer em casa
Compensação vestibular:
- Após manobra bem-sucedida: pode persistir leve desequilíbrio por dias/semanas
- Adaptação central: cérebro precisa se readaptar após informação vestibular ter sido anormal
- Reabilitação vestibular: exercícios específicos aceleram compensação em casos com sintomas residuais prolongados
- Melhora progressiva: equilíbrio retorna gradualmente ao normal em 2-6 semanas
🚨 Quando procurar atendimento médico urgente
Já aconteceu algum episódio de vertigem com você? Procure avaliação médica em diferentes cenários:
Sinais de alerta que exigem avaliação URGENTE (pronto-socorro):
- Vertigem contínua >2-3 minutos: VPPB é autolimitada – vertigem prolongada sugere AVC cerebelar ou tronco encefálico
- Sintomas neurológicos: diplopia (visão dupla), disartria (fala arrastada), disfagia (dificuldade engolir), fraqueza/dormência em face ou membros, ataxia severa (incoordenação marcada)
- Cefaleia súbita intensa: “pior cefaleia da vida” pode indicar hemorragia cerebelar
- Alteração de consciência: confusão mental, sonolência excessiva
- Primeiro episódio em >60 anos COM fatores de risco cardiovascular: hipertensão, diabetes, tabagismo, dislipidemia – risco aumentado de AVC
- Trauma craniano recente: pode haver hematoma ou fratura
- Perda auditiva súbita: pode indicar AVC labiríntico
Situações que exigem consulta otorrinolaringológica (não necessariamente emergência):
- Primeiro episódio de vertigem posicional: confirmar diagnóstico, realizar manobra terapêutica
- Vertigem recorrente: múltiplos episódios necessitam avaliação e tratamento
- Sintomas que não melhoram: após 1-2 semanas de tentativa de autotratamento
- Quedas: se vertigem causou queda ou quase-queda
- Impacto funcional: sintomas interferindo com trabalho, direção, atividades diárias
- Sintomas atípicos: características que não se encaixam em VPPB clássica
- Sintomas auditivos associados: zumbido, perda auditiva, plenitude – investigar outras causas
🔄 Diagnóstico diferencial: outras causas de tontura/vertigem
VPPB deve ser diferenciada de outras condições vestibulares e não-vestibulares:
Causas vestibulares periféricas (orelha interna):
- Neurite vestibular: vertigem contínua intensa por horas/dias, sem perda auditiva, melhora gradual
- Labirintite: vertigem + perda auditiva + zumbido, geralmente pós-infecciosa
- Doença de Ménière: crises de vertigem 20min-12h + perda auditiva flutuante + zumbido + plenitude
- Fístula perilinfática: vertigem com mudanças de pressão (Valsalva, espirro), história de trauma/barotrauma
- Ototoxicidade: medicamentos (aminoglicosídeos, quimioterápicos) causam vertigem + perda auditiva bilateral
Causas vestibulares centrais (cérebro/tronco):
- AVC cerebelar/tronco: vertigem súbita intensa + sinais neurológicos (ataxia, disartria, diplopia)
- Enxaqueca vestibular: vertigem episódica 5min-72h + cefaleia + fotofobia/fonofobia
- Esclerose múltipla: vertigem recorrente + outros sintomas neurológicos, jovens
- Tumor de ângulo pontocerebelar: vertigem leve + perda auditiva unilateral progressiva
Causas não-vestibulares:
- Hipotensão ortostática: tontura ao levantar, melhora deitando – NÃO vertigem rotatória
- Hipoglicemia: tontura + sudorese + tremor + melhora com alimentação
- Arritmias: palpitações + síncope/pré-síncope
- Ansiedade/síndrome do pânico: tontura vaga + hiperventilação + sintomas autonômicos
- Medicações: anti-hipertensivos, sedativos, anticonvulsivantes
📚 Educação do paciente e autocuidado
Entendendo a condição:
- Não é doença grave: VPPB não indica tumor, AVC ou condição neurológica perigosa – é problema mecânico benigno
- Altamente tratável: 80-90% curam com manobra simples
- Pode recorrer: mas mesmo tratamento funciona novamente
- Não causa perda auditiva: não danifica audição ou função vestibular permanentemente
Durante episódio agudo em casa:
- Mantenha-se seguro: sente-se ou deite-se imediatamente para evitar queda
- Fixe olhar: focar visualmente em objeto estático ajuda reduzir vertigem
- Respiração calma: hiperventilação por ansiedade piora sintomas
- Aguarde passar: vertigem resolve em <1-2 minutos – não durará indefinidamente
- Evite movimentos bruscos: após episódio, mova-se lentamente
Prevenção de quedas:
- Iluminação adequada: especialmente à noite – luz noturna no quarto/banheiro
- Remova tapetes: reduzir riscos de tropeço
- Barras de apoio: no banheiro próximo ao vaso/chuveiro
- Calçado adequado: evite chinelos escorregadios
- Movimente-se devagar: especialmente ao levantar da cama – sente-se primeiro, aguarde, depois levante
Adaptações durante sintomas:
- Durma com cabeceira elevada: 30-45° pode reduzir frequência de episódios
- Vire na cama lentamente: movimentos graduais em vez de bruscos
- Evite posições gatilho: temporariamente – mas não evite permanentemente (evitação crônica piora compensação)
- Não dirija: durante sintomas ativos – risco de acidente se vertigem ocorrer ao volante
Conclusão 🎯
Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) é doença do labirinto (orelha interna) que gera períodos rápidos de tontura rotatória. Primeiramente, sintomas surgem quando cabeça é movimentada em algumas posições específicas. É bastante comum levar a sintomas na posição deitada. Principalmente quando se vira na cama. Além disso, olhando para cima ou para baixo (extensão e flexão do pescoço). Ou seja, movimentos específicos que deslocam otólitos (cristais de cálcio) dentro dos canais semicirculares.
Essa sensação de tontura em que há sensação de movimento rotatório, chamada de vertigem, geralmente dura alguns segundos até minutos. Principalmente resolve espontaneamente quando otólitos param de se mover. Entretanto, muitas vezes causa mal estar como náuseas e vômitos durante episódios. Consequentemente, sensação de pressão baixa também pode ocorrer. Além disso, muito comum sensação de cabeça vazia, cabeça pesada, desequilíbrio associados. Assim, sintomas residuais podem persistir horas mesmo entre crises.
Consequentemente, VPPB é condição assustadora que pode parecer grave durante episódios, mas nome “benigna” indica que não representa tumor cerebral, AVC ou doença neurológica perigosa. Ou seja, apesar de sintomas dramáticos, é problema mecânico tratável com manobras simples de reposicionamento canalicular – especialmente manobra de Epley que tem taxa de sucesso de 80-90% com aplicação única no consultório.
Assim, já aconteceu algum episódio de vertigem com você? Reconhecer características típicas (duração breve 10-60 segundos, desencadeada por posições específicas, vertigem rotatória intensa, sem perda auditiva) permite diferenciar VPPB de outras causas de tontura. Principalmente diagnóstico é confirmado por manobra de Dix-Hallpike que reproduz sintomas e permite observar nistagmo característico – teste clínico suficiente sem necessidade de exames de imagem ou laboratoriais na maioria dos casos.
Portanto, tratamento de VPPB é mecânico (não medicamentoso) através de manobras de reposicionamento que movem otólitos deslocados de volta ao utrículo – eliminando causa mecânica dos sintomas. Além disso, prognóstico é excelente com 80-90% de cura após 1-2 manobras e retorno completo a atividades normais sem sequelas permanentes. Entretanto, recorrência ocorre em 15-37% ao longo de anos mas responde igualmente bem ao mesmo tratamento.
Principalmente não sofra em silêncio ou evite movimentos permanentemente por medo de desencadear vertigem. Consequentemente, procure avaliação com otorrinolaringologista ou médico especialista em tontura para diagnóstico correto e tratamento adequado – manobra simples de 5-10 minutos pode resolver completamente problema que estava causando impacto significativo em qualidade de vida, trabalho e sono.
Saiba mais sobre VPPB .
📞 Agende sua consulta para avaliação de tontura e realização de manobras de reposicionamento
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Dr. Lucas Zambon
Médico Otorrinolaringologista em Curitiba
CRM-PR 31209 | RQE 16825
