Sintomas de Apneia do Sono: o que o Corpo Sinaliza Durante a Noite

Ilustração das vias aéreas superiores com obstrução associada à apneia do sono

A apneia do sono é uma condição em que a respiração é interrompida repetidamente durante o sono. Essas interrupções podem durar segundos, surgem várias vezes por hora e passam completamente despercebidas por quem dorme. Quem percebe, na maioria das vezes, é o parceiro ou familiar que compartilha o quarto.

Segundo as diretrizes da American Academy of Sleep Medicine (AASM, 2017), o diagnóstico de síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) é estabelecido quando se documentam cinco ou mais eventos respiratórios por hora de sono associados a pelo menos um sintoma clínico — ou quinze ou mais eventos por hora independentemente de sintomas. Conhecer o quadro clínico é, portanto, o primeiro passo para encaminhar a investigação adequada.

Resumo Rápido: Sintomas de Apneia do Sono

O que é: Interrupções repetidas da respiração durante o sono, com queda de oxigenação e fragmentação do sono
Sinal mais relatado: Ronco alto e irregular com pausas respiratórias observadas pelo parceiro
Sinal mais incapacitante: Sonolência diurna excessiva — dificuldade de permanecer acordado em situações rotineiras
Gravidade: Leve: 5 a 14 eventos/h — Moderada: 15 a 29 eventos/h — Grave: 30 ou mais eventos/h
Subdiagnóstico: Estimativa: 80 a 90% dos casos não diagnosticados globalmente
Quando avaliar: Ronco com pausas, sonolência diurna, cefaleia matinal ou sono não restaurador persistentes

O que acontece durante uma apneia

Durante o sono, a musculatura da faringe relaxa naturalmente. Na apneia obstrutiva, esse relaxamento é excessivo: as paredes das vias aéreas superiores colapsam e bloqueiam a passagem de ar. O fluxo de ar cessa — ou reduz de forma significativa — por pelo menos dez segundos.

O organismo detecta a queda na saturação de oxigênio e provoca um microdespertar: o tônus muscular se recompõe, a respiração é retomada, geralmente com um ronco explosivo ou engasgo. O paciente raramente acorda de forma consciente, mas o sono é fragmentado repetidamente ao longo da noite.

Esse ciclo — obstrução, hipóxia, microdespertar, reoxigenação — se repete dezenas ou centenas de vezes por noite nos casos graves. O resultado é uma noite tecnicamente “dormida” que não cumpre sua função restauradora.

Sintomas noturnos: o que o parceiro observa

Boa parte dos sintomas noturnos da apneia é percebida por quem divide o ambiente de sono com o paciente. A ausência de um parceiro de quarto é, aliás, um dos fatores que contribui para o subdiagnóstico da condição.

Ronco com padrão irregular

O ronco da apneia tem uma sonoridade específica: alto, intermitente, interrompido por períodos de silêncio súbito. Esses silêncios são as próprias apneias — momentos em que não há fluxo de ar e, portanto, não há ronco. O ciclo termina com um ronco explosivo, um engasgo ou um ressoar brusco quando a respiração é retomada.

Ronco contínuo e sem pausas pode indicar ronco primário simples, uma condição distinta que não envolve apneias. A diferenciação entre as duas situações é clinicamente relevante e está detalhada no guia completo sobre ronco e apneia do sono.

Pausas respiratórias observadas

O relato de pausas respiratórias observadas por familiar ou parceiro é um dos sintomas qualificadores de maior peso diagnóstico, conforme as diretrizes da AASM (2017). Trata-se de um sinal altamente específico: quando presente, aumenta substancialmente a probabilidade pré-teste de SAOS.

Engasgos e microdespertares

Despertares noturnos com sensação de sufocamento ou engasgo ocorrem quando o mecanismo de reativação da musculatura faríngea é suficientemente intenso para provocar despertar consciente. Esses episódios podem ser angustiantes, mas são clinicamente menos frequentes do que os microdespertares que não chegam à consciência.

Sintomas diurnos: o impacto no dia seguinte

A fragmentação do sono noturno tem consequências diretas sobre o funcionamento diurno. Muitos pacientes convivem com esses sintomas por anos sem associá-los a um problema respiratório do sono.

Sonolência diurna excessiva

A sonolência diurna excessiva é o sintoma funcional mais descrito. Manifesta-se como dificuldade de permanecer acordado durante atividades de baixa estimulação — assistir televisão, ler, viajar como passageiro. Nos casos mais graves, a sonolência aparece em situações que exigem atenção ativa, como reuniões de trabalho ou direção de veículos.

A AASM (2017) utiliza a sonolência diurna como um dos critérios qualificadores do diagnóstico de SAOS. A Escala de Epworth (ESS) é frequentemente utilizada para quantificar o grau de sonolência: pontuações acima de 10 indicam sonolência clinicamente relevante.

Cefaleia matinal e sono não restaurador

Acordar com dor de cabeça é uma queixa frequente na apneia. O mecanismo envolve a vasodilatação cerebral causada pela hipercapnia noturna — acúmulo de dióxido de carbono durante as apneias. Em geral, a cefaleia melhora ao longo da manhã, ao contrário de outras causas de cefaleias.

A sensação de sono não restaurador — acordar cansado mesmo após sete ou oito horas na cama — decorre diretamente da arquitetura do sono comprometida. Os microdespertares impedem que fases de sono profundo sejam mantidas por tempo adequado.

Déficit cognitivo e alterações de humor

Dificuldades de concentração, falhas de memória e redução do desempenho cognitivo são relatadas por parcela expressiva dos pacientes com SAOS. As diretrizes da AASM (2017) incluem explicitamente “distúrbio cognitivo” e “alteração de humor” como critérios qualificadores do diagnóstico, reconhecendo o impacto neurocognitivo da condição.

Outros sintomas associados

Além dos sinais mais conhecidos, outros achados integram o quadro clínico da SAOS e constam como critérios qualificadores nas diretrizes da AASM (2017):

Noctúria: necessidade de urinar durante a noite, acordando duas ou mais vezes, pode estar relacionada à apneia por mecanismos endócrinos e de pressão intratorácica. Sua presença em adultos sem causa urológica evidente justifica investigação do sono.

Hipertensão arterial sistêmica: a HAS figura como critério qualificador na diretriz da AASM. A presença de hipertensão de difícil controle ou resistente ao tratamento farmacológico é um contexto em que a investigação de SAOS está clinicamente indicada.

Fibrilação atrial, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral: essas condições também constam na lista de qualificadores diagnósticos da AASM (2017), não como consequências causais comprovadas, mas como contextos clínicos que aumentam a probabilidade pré-teste de SAOS e indicam investigação.

Quem tem maior risco de desenvolver SAOS

A SAOS pode afetar qualquer adulto, mas alguns grupos apresentam maior probabilidade clínica. As diretrizes diagnósticas da AASM (2017) consideram esses fatores na avaliação pré-teste:

Sexo masculino: estudos populacionais indicam que homens têm aproximadamente o dobro da prevalência de distúrbio respiratório do sono em comparação com mulheres adultas. Após a menopausa, essa diferença se reduz.

Obesidade: o excesso de tecido adiposo na região cervical e na base da língua reduz o calibre das vias aéreas superiores, favorecendo o colapso durante o sono. Trata-se do principal fator de risco modificável.

Características anatômicas: estruturas como retrognatia (queixo recuado), úvula alongada, tonsilas hipertrofiadas e desvio de septo nasal podem contribuir para o estreitamento das vias aéreas e aumentar a predisposição a apneias.

Histórico familiar: há componente hereditário reconhecido na anatomia das vias aéreas superiores, o que confere relevância ao histórico familiar de ronco e apneia.

Globalmente, análise publicada no The Lancet Respiratory Medicine (Benjafield et al., 2019) estima que aproximadamente 425 milhões de adultos entre 30 e 69 anos apresentam SAOS moderada a grave. Entre 80% e 90% desses casos estimam-se não diagnosticados — subdiagnóstico que resulta em exposição prolongada aos efeitos da hipóxia e fragmentação do sono.

Quando a avaliação médica está indicada

A presença de qualquer um dos sinais abaixo, de forma persistente, indica avaliação por otorrinolaringologista ou especialista em medicina do sono:

– Ronco alto com períodos de silêncio observados por parceiro ou familiar
– Pausas respiratórias relatadas durante o sono
– Despertares com engasgo ou sufocamento
– Sonolência diurna que interfere em atividades cotidianas
– Cefaleia matinal recorrente sem outra causa identificada
– Sono não restaurador persistente
– Dificuldades de concentração ou memória sem outra explicação
– Noctúria frequente sem causa urológica conhecida

A avaliação clínica definirá a necessidade de exame diagnóstico — polissonografia laboratorial ou teste domiciliar — conforme o perfil clínico de cada paciente. O diagnóstico precede qualquer decisão terapêutica.

Saiba Mais sobre Ronco e Apneia do Sono

Para informações completas sobre ronco e apneia — causas, diagnóstico, tipos de exame e todas as opções de tratamento disponíveis — acesse o guia completo:

→ Guia Completo sobre Ronco e Apneia do Sono

Perguntas Frequentes sobre Sintomas de Apneia do Sono

Ronco forte significa que tenho apneia do sono?

Nem sempre. O ronco simples (primário) ocorre sem interrupções do fluxo de ar e sem queda de oxigenação. Já na apneia, o ronco é acompanhado de pausas respiratórias — períodos de silêncio em que o ar não passa — seguidos de ronco explosivo ou engasgo ao retomar a respiração. O relato de pausas por parceiro ou familiar é o dado clínico de maior peso para diferenciar as duas situações.

Posso ter apneia sem sentir nada durante o dia?

Sim. As diretrizes da AASM (2017) reconhecem que a SAOS pode ser diagnosticada quando há 15 ou mais eventos respiratórios por hora, mesmo sem sintomas diurnos relatados. Além disso, muitos pacientes se adaptam gradualmente à sonolência e deixam de reconhecê-la como anormal, o que contribui para o subdiagnóstico da condição.

Cefaleia ao acordar pode ser sinal de apneia?

Pode. A cefaleia matinal é uma manifestação reconhecida da apneia do sono. Ela tende a se apresentar logo ao despertar e melhorar nas primeiras horas do dia. O mecanismo envolve a vasodilatação cerebral causada pelo acúmulo de dióxido de carbono durante as apneias noturnas. A presença de cefaleia matinal recorrente, associada a ronco ou sonolência, justifica avaliação especializada.

A apneia do sono afeta apenas adultos com sobrepeso?

Não. Embora a obesidade seja o principal fator de risco modificável, a apneia pode ocorrer em adultos de peso normal quando há características anatômicas desfavoráveis — como queixo recuado, tonsilas aumentadas ou obstrução nasal significativa. Homens magros com pescoço largo ou retrognatia constitucional podem apresentar apneia sem sobrepeso evidente.

Qual exame confirma o diagnóstico de apneia do sono?

A polissonografia laboratorial (tipo 1) é o padrão-ouro diagnóstico, segundo as diretrizes da AASM (2017). Em adultos com alta probabilidade clínica de SAOS moderada a grave e sem comorbidades significativas, o teste domiciliar (HSAT, tipo 3) pode ser uma alternativa adequada. A escolha entre os dois exames é feita pelo médico com base no perfil clínico individual.

Dr. Lucas de Azeredo Zambon
Médico Otorrinolaringologista em Curitiba
CRM-PR 31209 | RQE 16825

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