Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB): O Que É, Causas e Tratamento

Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) com episódios breves ao deitar

A vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) constitui a causa mais comum de vertigem rotatória, caracterizando-se por episódios breves de vertigem intensa desencadeados por mudanças específicas de posição da cabeça. Segundo critérios diagnósticos estabelecidos pela Bárány Society (2015), o diagnóstico definitivo de VPPB requer identificação de episódios recorrentes de vertigem posicional com duração inferior a um minuto, provocados por mudanças posicionais específicas, associados a nystagmus característico durante teste provocativo.

A Clinical Practice Guideline da Academia Americana de Otorrinolaringologia (AAO-HNS, 2017) estabelece VPPB como diagnóstico clínico baseado em história característica e teste Dix-Hallpike positivo, documentando que pacientes com VPPB típica — episódios breves posicionais sem sintomas neurológicos adicionais — caracteristicamente não exigem exames de imagem radiológica ou testes vestibulares laboratoriais para confirmação diagnóstica.

Resumo Rápido: VPPB

O que é VPPB: Vertigem posicional paroxística benigna — episódios breves de vertigem intensa (segundos a minutos) desencadeados por mudanças posicionais da cabeça
Causa principal: Deslocamento de otocônias (cristais de carbonato de cálcio) do utrículo para canais semicirculares, predominantemente canal posterior
Sintomas típicos: Vertigem rotatória intensa, náusea, desequilíbrio breve ao deitar, virar na cama, levantar, ou inclinar cabeça para trás
Duração episódios: Menos de 1 minuto por episódio (critério diagnóstico Bárány Society 2015)
Diagnóstico: Clínico (história + teste Dix-Hallpike) — exames de imagem não indicados rotineiramente segundo AAO-HNS 2017
Tratamento: Manobras de reposicionamento canalítico (Epley, Semont) — evidência Cochrane documenta eficácia. Recorrência ocorre em ~36% dos casos

O Que É Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB)

Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) define-se como desordem vestibular periférica caracterizada por episódios breves de vertigem rotatória intensa precipitados por mudanças específicas de posição da cabeça em relação à gravidade. O termo “paroxística” refere-se ao caráter episódico súbito dos sintomas; “posicional” indica a dependência de posições específicas da cabeça como gatilhos; “benigna” distingue a condição de causas centrais potencialmente graves de vertigem.

VPPB constitui a causa mais comum de vertigem rotatória em adultos, respondendo por aproximadamente 20% a 30% de todos os casos de vertigem avaliados em contextos clínicos especializados. A prevalência aumenta com idade avançada, sendo mais frequente após os 50 anos. Segundo Clinical Practice Guideline da AAO-HNS (2017), VPPB afeta ambos os sexos, com discreta predominância feminina documentada em estudos epidemiológicos.

Fisiopatologia: Otocônias e Canais Semicirculares

A fisiopatologia da VPPB relaciona-se ao deslocamento inapropriado de otocônias — cristais microscópicos de carbonato de cálcio normalmente localizados na mácula do utrículo — para o interior dos canais semicirculares. Os canais semicirculares são estruturas tubulares do ouvido interno preenchidas por endolinfa, responsáveis pela detecção de movimentos rotacionais da cabeça. Normalmente, os canais são desprovidos de partículas sólidas, respondendo exclusivamente ao fluxo da endolinfa durante os movimentos cefálicos.

Quando otocônias deslocam-se para dentro de um canal semicircular, movimentos posicionais específicos da cabeça provocam fluxo anormal de endolinfa mediado pelo deslocamento inercial das partículas densas (canalolitíase). Esse fluxo anormal estimula inapropriadamente os receptores sensoriais do canal afetado, gerando sinal neural de movimento rotacional inexistente, percebido clinicamente como vertigem rotatória intensa e objetivamente como nystagmus característico. O canal posterior é o mais frequentemente afetado (aproximadamente 85% a 90% dos casos de VPPV), seguido pelo canal lateral (5% a 15%) e, raramente, canal anterior (menos de 5%).

Apresentação Clínica Típica da VPPB

A apresentação clínica característica de VPPB consiste em episódios súbitos de vertigem rotatória intensa desencadeados por mudanças posicionais específicas: deitar-se na cama, virar-se de lado durante o sono, levantar-se da posição deitada, inclinar a cabeça para trás (olhar para cima, lavar cabelo), ou inclinar a cabeça para frente (amarrar sapatos, pegar objetos no chão). A vertigem inicia-se abruptamente após o movimento desencadeante, atinge pico de intensidade em poucos segundos, e cessa espontaneamente em menos de um minuto — caracteristicamente durando 10 a 40 segundos por episódio.

Segundo critérios diagnósticos da Bárány Society (2015), a duração inferior a um minuto por episódio constitui critério diagnóstico essencial de VPPB. Episódios prolongados (>1 minuto) ou vertigem contínua não posicional sugerem diagnósticos alternativos. A vertigem na VPPB frequentemente acompanha-se de náusea, vômitos (em episódios intensos), e sensação de desequilíbrio entre os episódios, mas não cursa com perda auditiva, zumbido persistente, plenitude auricular, cefaleia intensa, diplopia, disartria ou outros sintomas neurológicos — a presença desses sintomas indica necessidade de investigação diagnóstica ampliada.

Pacientes com VPPB frequentemente desenvolvem comportamento evitativo, evitando posições desencadeantes e limitando movimentos cefálicos, o que pode impactar qualidade de vida e aumentar risco de quedas em indivíduos idosos. A CPG AAO-HNS (2017) enfatiza avaliação de fatores modificadores como mobilidade reduzida, desordens neurológicas coexistentes e risco aumentado de quedas no contexto de VPPB.

Como o Diagnóstico de VPPB É Estabelecido

O diagnóstico de VPPB fundamenta-se primariamente em avaliação clínica, integrando história característica e teste provocativo Dix-Hallpike. O teste Dix-Hallpike consiste em posicionamento rápido do paciente da posição sentada para decúbito dorsal com cabeça estendida e rodada 45 graus, visando desencadear nystagmus característico em pacientes com VPPB de canal posterior. Segundo critérios diagnósticos da Bárány Society (2015), o teste positivo para VPPB de canal posterior produz nystagmus torsional com componente vertical superior (upbeating), com latência breve (segundos), intensidade crescente seguida de resolução gradual (crescendo-decrescendo), e fatigabilidade em repetições subsequentes.

A presença de história compatível sem confirmação por teste provocativo caracteriza VPPB provável; a combinação de história compatível com teste Dix-Hallpike positivo demonstrando nystagmus característico estabelece VPPB definitivo. Quando a história sugere VPPB mas o teste Dix-Hallpike é negativo para ambos os lados, a CPG AAO-HNS (2017) recomenda realização de teste supine roll (teste lateral) para investigar VPPB de canal lateral, que gera nystagmus horizontal ao invés de torsional-vertical.

Diferenciação diagnóstica torna-se necessária para distinguir VPPB de outras causas de vertigem. Vertigem contínua não posicional sugere neurite vestibular. Vertigem episódica prolongada (20 minutos a 12 horas) com perda auditiva flutuante sugere doença de Ménière. Vertigem acompanhada de cefaleia intensa, diplopia, déficits neurológicos focais ou alteração de marcha severa indica necessidade de investigação de causas centrais, conforme abordado no artigo de red flags em vertigem.

Quando Exames de Imagem Não São Indicados em VPPB

A Clinical Practice Guideline da AAO-HNS para VPPB (2017) estabelece recomendação contrária ao uso de exames de imagem radiológica — incluindo ressonância magnética ou tomografia computadorizada — em pacientes com VPPB típica que preenchem critérios diagnósticos clínicos sem sinais ou sintomas adicionais. A guideline fundamenta essa recomendação na ausência de benefício diagnóstico adicional da neuroimagem em VPPB não complicada, uma vez que VPPB é diagnóstico clínico funcional sem substrato anatômico identificável em exames de imagem convencionais.

Exames de imagem tornam-se apropriados quando a apresentação clínica desvia do padrão típico de VPPB: presença de sintomas neurológicos adicionais (cefaleia intensa, diplopia, disartria, déficits focais), vertigem posicional persistente que não responde a tratamento adequado, ou presença de perda auditiva neurossensorial progressiva ou súbita concomitante. Nessas situações, a neuroimagem visa identificar causas estruturais de vertigem posicional atípica, como lesões cerebelares, malformações de fossa posterior, ou tumores do ângulo pontocerebelar.

Tratamento: Manobras de Reposicionamento Canalítico

O tratamento primário da VPPB consiste em manobras de reposicionamento canalítico, que visam reposicionar as otocônias deslocadas do canal semicircular de volta ao utrículo, onde elas não provocam sintomas. Segundo CPG AAO-HNS (2017), pacientes com VPPB de canal posterior devem ser oferecidos ou referenciados para procedimento de reposicionamento canalítico como primeira linha de tratamento.

Revisão sistemática Cochrane (2014) avaliando 11 ensaios clínicos randomizados (745 pacientes) documentou que a manobra de Epley — principal técnica de reposicionamento canalítico para VPPB de canal posterior — demonstrou eficácia significativa comparada a controle simulado ou nenhum tratamento. A evidência indica conversão do teste Dix-Hallpike de positivo para negativo em proporção substancialmente maior de pacientes tratados com manobra comparados a controles. Para detalhamento específico da técnica, benefícios e contexto clínico da manobra, consulte o artigo dedicado sobre a manobra de Epley.

A CPG AAO-HNS (2017) estabelece recomendação contrária ao uso rotineiro de medicamentos vestibular suppressants (antihistamínicos, benzodiazepínicos) no tratamento de VPPB não complicada, uma vez que essas medicações atuam suprimindo sintomas vestibulares sem abordar a causa mecânica subjacente (otocônias deslocadas). A guideline também recomenda contra restrições posturais pós-procedimento, documentando ausência de benefício adicional dessas restrições.

Observação expectante com acompanhamento constitui opção de manejo inicial aceitável, particularmente em casos leves ou quando há contraindicações para manobras (instabilidade cervical grave, estenose carotídea grave). Resolução espontânea de VPPB ocorre em subgrupo de pacientes, mas a taxa de resolução e o tempo necessário são variáveis.

Recorrência e Reavaliação

Recorrência de VPPB após tratamento bem-sucedido ocorre com frequência substancial. Segundo CPG AAO-HNS (2017), aproximadamente 36% dos pacientes apresentam recorrência de VPPB em seguimento prolongado. A recorrência pode ocorrer semanas, meses ou anos após resolução inicial, frequentemente desencadeada por trauma craniano menor, repouso prolongado no leito, ou procedimentos odontológicos que mantém cabeça em posição prolongada.

A guideline AAO-HNS (2017) recomenda reavaliação de pacientes aproximadamente um mês após observação ou tratamento para avaliar resposta terapêutica e persistência de sintomas. Persistência de vertigem posicional após tratamento adequado justifica investigação de VPPB refratária, VPPB de múltiplos canais, ou diagnósticos alternativos de desordens vestibulares periféricas ou centrais subjacentes. Sintomas persistentes que não respondem a tratamento adequado ou presença de sinais atípicos exigem reavaliação diagnóstica ampliada.

Contexto de Avaliação Especializada

A avaliação especializada otorrinolaringológica ou otoneurológica torna-se indicada em múltiplos contextos relacionados a VPPB: confirmação diagnóstica em casos atípicos, realização de manobras de reposicionamento quando não disponíveis em contexto de atenção primária, investigação de VPPB refratária, avaliação de recorrências frequentes, e diferenciação diagnóstica entre VPPB e outras desordens vestibulares periféricas ou centrais.

Segundo CPG AAO-HNS (2017), a avaliação considera fatores modificadores que influenciam manejo: mobilidade reduzida do paciente, desordens do sistema nervoso central coexistentes, falta de suporte domiciliar adequado, e risco aumentado de quedas. Esses fatores podem influenciar a escolha entre tratamento com manobras por profissional, reabilitação vestibular domiciliar, ou observação com acompanhamento programado. Educação do paciente sobre impacto na segurança, recorrência, e importância de seguimento constitui componente recomendado da abordagem clínica.

📋 Saiba Mais Sobre Vertigem

Para compreensão abrangente sobre vertigem, causas, diagnóstico diferencial e abordagens clínicas, consulte o artigo completo: Vertigem: Causas, Diagnóstico e Tratamento.

Perguntas Frequentes sobre VPPB

VPPB é uma condição grave?

VPPB é condição benigna do ouvido interno, não indicando doença grave. O termo “benigna” no nome reflete a ausência de risco à vida ou comprometimento neurológico central. No entanto, VPPB pode impactar qualidade de vida, aumentar risco de quedas em idosos, e gerar limitações funcionais. A condição é tratável, frequentemente com resolução após manobras de reposicionamento, mas apresenta taxa de recorrência de aproximadamente 36% segundo literatura.

Quanto tempo dura cada crise de VPPB?

Episódios individuais de vertigem na VPPB característicamente duram menos de um minuto — tipicamente 10 a 40 segundos. A duração breve (inferior a 1 minuto) constitui critério diagnóstico essencial estabelecido pela Bárány Society. Vertigem que persiste por minutos prolongados ou horas sugere diagnósticos alternativos como neurite vestibular ou doença de Ménière. A condição VPPB pode persistir por semanas ou meses se não tratada, mas cada episódio individual é breve.

VPPB tem cura definitiva ou volta sempre?

VPPB frequentemente resolve após tratamento com manobras de reposicionamento canalítico, mas apresenta taxa de recorrência substancial. Literatura documenta recorrência em aproximadamente 36% dos pacientes em seguimento prolongado. Recorrências podem ocorrer semanas, meses ou anos após resolução inicial. Fatores desencadeantes de recorrência incluem trauma craniano menor, repouso prolongado no leito, e posições cefálicas mantidas por tempo prolongado. Reavaliação e repetição de manobras são apropriadas em recorrências.

Quando VPPB exige exames de ressonância magnética ou tomografia?

VPPB típica que preenche critérios diagnósticos clínicos não exige exames de imagem segundo Clinical Practice Guideline da AAO-HNS (2017). A guideline estabelece recomendação contrária ao uso de neuroimagem em VPPB não complicada. Imagem torna-se apropriada quando há sinais atípicos: presença de sintomas neurológicos adicionais (cefaleia intensa, diplopia, déficits focais), perda auditiva progressiva ou súbita concomitante, ou VPPB refratária que persiste após tratamento adequado. Para critérios detalhados de indicação de imagem em vertigem, consulte o artigo quando a vertigem exige ressonância magnética.

O que fazer quando sintomas de VPPB persistem após tratamento?

Persistência de sintomas após tratamento inicial com manobras justifica reavaliação clínica para investigar VPPB refratária, VPPB de múltiplos canais, técnica inadequada na manobra inicial, ou diagnósticos alternativos. A CPG AAO-HNS (2017) recomenda reavaliação aproximadamente um mês após tratamento para avaliar resposta. Sintomas que persistem ou pioram exigem investigação diagnóstica ampliada para causas periféricas ou centrais subjacentes. Recorrências respondem frequentemente a repetição de manobras de reposicionamento.

Dr. Lucas de Azeredo Zambon
Médico Otorrinolaringologista em Curitiba
CRM-PR 31209 | RQE 16825

Saiba mais: Veja o guia completo sobre Vertigem.

Deixe um comentário

Rolar para cima