Doença de Ménière: critérios diagnósticos e opções de tratamento

Doença de Ménière — Otorrinolaringologia Curitiba Dr. Lucas Zambon

A doença de Ménière é uma condição crônica do ouvido interno caracterizada por episódios recorrentes de vertigem intensa, perda auditiva neurossensorial flutuante, zumbido unilateral e sensação de plenitude no ouvido afetado. O conjunto desses quatro sintomas constitui a chamada tétrade de Ménière e orienta a investigação diagnóstica.

Segundo os critérios diagnósticos da Sociedade Bárány (2015), co-endossados pela Academia Americana de Otorrinolaringologia, o diagnóstico de Ménière Definitiva exige documentação audiométrica de perda auditiva neurossensorial nas baixas e médias frequências, além da exclusão de outras condições vestibulares. A Clinical Practice Guideline da AAO-HNS (2020) estabelece recomendações para workup diagnóstico e opções terapêuticas baseadas em revisão sistemática de evidências.

Resumo Rápido: Doença de Ménière

O que é: Doença crônica do ouvido interno com episódios recorrentes de vertigem, perda auditiva flutuante, zumbido e plenitude auricular unilateral
Fisiopatologia: Hidropsia endolinfática — acúmulo de endolinfa no labirinto membranoso do ouvido interno
Duração dos episódios: 20 minutos a 12 horas para Ménière Definitiva (critérios Bárány 2015)
Diagnóstico: Critérios clínicos + audiometria obrigatória para documentar perda auditiva nas frequências graves (250–2000 Hz)
Tratamento: Dieta hipossódica, diuréticos (1ª linha); procedimentos intratimpânicos nos casos refratários (CPG AAO-HNS 2020)
Quando procurar médico: Primeiro episódio de vertigem intensa, perda auditiva unilateral súbita, zumbido persistente em um ouvido

O que é a doença de Ménière?

A doença de Ménière é uma condição crônica e evolutiva do labirinto membranoso, estrutura responsável tanto pela audição quanto pelo equilíbrio no ouvido interno. A fisiopatologia mais aceita envolve a hidropsia endolinfática — acúmulo anormal de endolinfa no labirinto membranoso —, que provoca distensão das membranas e, eventualmente, rupturas transitórias responsáveis pelos episódios agudos.

A doença manifesta-se predominantemente de forma unilateral, embora o acometimento bilateral possa ocorrer em parcela dos casos ao longo da evolução. O curso clínico é variável: há períodos de remissão intercalados com crises, e a progressão para perda auditiva permanente nas fases avançadas representa uma das principais preocupações no manejo a longo prazo.

Critérios diagnósticos segundo a Sociedade Bárány

Os critérios internacionais para diagnóstico de Ménière foram estabelecidos pela Sociedade Bárány em 2015 com co-endosso de múltiplas sociedades de otoneurologia. Distinguem-se duas categorias diagnósticas:

Ménière Definitiva

O diagnóstico de Ménière Definitiva requer a presença simultânea de todos os seguintes critérios:

  • Dois ou mais episódios de vertigem rotatória espontânea com duração de 20 minutos a 12 horas
  • Perda auditiva neurossensorial documentada audiometricamente nas baixas e médias frequências (250–2000 Hz), unilateral, documentada antes, durante ou após um episódio de vertigem
  • Sintomas auriculares flutuantes no ouvido afetado: zumbido, plenitude aural ou alteração auditiva
  • Exclusão de outros diagnósticos capazes de explicar o quadro clínico

A documentação audiométrica é critério obrigatório para Ménière Definitiva, conforme reafirmado pela Clinical Practice Guideline da AAO-HNS (2020).

Ménière Provável

O diagnóstico de Ménière Provável aplica-se quando há episódios de vertigem ou desequilíbrio com duração de 20 minutos a 24 horas acompanhados de sintomas auriculares subjetivos (zumbido, plenitude ou alteração auditiva), porém sem documentação audiométrica formal da perda auditiva. Esta categoria implica investigação adicional para confirmação ou exclusão diagnóstica.

Sintomas da doença de Ménière

A tétrade clássica de Ménière compreende quatro sintomas que, em conjunto, orientam a suspeita diagnóstica:

Vertigem episódica

A vertigem em Ménière é rotatória, espontânea e de início abrupto. Os episódios têm duração de 20 minutos a 12 horas (para Ménière Definitiva), com resolução gradual seguida de desequilíbrio residual. Durante as crises, náusea e vômito são frequentes.

Perda auditiva flutuante

A perda auditiva nas fases iniciais da doença é do tipo neurossensorial, preferencialmente nas baixas e médias frequências (250–2000 Hz), e apresenta flutuação — melhora nos períodos intercrise, piora durante e após os episódios. Nas fases avançadas, a perda auditiva tende à estabilização em grau moderado a severo, podendo afetar também as frequências agudas.

Zumbido unilateral

O zumbido em Ménière é tipicamente unilateral, localizado no ouvido afetado, e pode ter caráter flutuante — intensificando-se antes e durante as crises. A lateralidade do zumbido orienta quanto ao ouvido acometido e é critério para investigação de outros diagnósticos quando bilateral.

Plenitude auricular

A sensação de ouvido “cheio” ou pressão no ouvido afetado frequentemente precede ou acompanha os episódios de vertigem e pode ser interpretada pelo paciente como entupimento. Assim como o zumbido, tende à unilateralidade.

Como o diagnóstico de Ménière é realizado?

O diagnóstico é clínico e baseado nos critérios Bárány 2015, com suporte de exames complementares. A CPG AAO-HNS 2020 estabelece as seguintes etapas de workup:

Audiometria tonal e vocal

A audiometria é exame obrigatório para o diagnóstico de Ménière Definitiva. Documenta a perda auditiva neurossensorial nas baixas e médias frequências, distingue Ménière de outras causas de vertigem episódica e permite monitorar a evolução auditiva ao longo do tratamento.

Avaliação vestibular

Exames de função vestibular — como a vectoeletronistagmografia (VENG), potencial evocado miogênico vestibular (VEMP) e posturografia — auxiliam na caracterização da disfunção vestibular e no acompanhamento da compensação central.

Ressonância magnética

A ressonância magnética do osso temporal com gadolínio é indicada para exclusão de schwannoma vestibular e outras lesões retrococlears, especialmente em casos de perda auditiva unilateral progressiva. Não confirma o diagnóstico de Ménière, mas integra o processo de exclusão diagnóstica.

Diagnóstico diferencial

O diagnóstico diferencial de Ménière inclui migrânea vestibular (episódios semelhantes sem os critérios auriculares específicos), VPPB (vertigem posicional de segundos a minutos), neurite vestibular (episódio único prolongado sem sintomas auriculares) e fístula perilinfática, entre outros. A exclusão dessas condições integra os critérios diagnósticos formais.

Opções de tratamento da doença de Ménière

O tratamento visa o controle dos episódios de vertigem e a preservação da função auditiva. A CPG AAO-HNS 2020 organiza as opções em etapas conforme a resposta clínica:

Abordagem inicial

A dieta hipossódica (restrição de sódio) e o uso de diuréticos constituem opções de tratamento inicial, com base em estudos observacionais. Embora a evidência seja classificada como de baixa qualidade metodológica pela CPG, essas medidas são amplamente utilizadas na prática clínica e integram as recomendações de primeira linha.

Casos refratários: corticosteróide intratimpânico

Nos casos em que o controle dos episódios de vertigem não é obtido com medidas conservadoras, o corticosteróide intratimpânico (dexametasona ou metilprednisolona via injeção na orelha média) representa opção para redução da frequência e intensidade das crises. O procedimento é realizado em ambiente ambulatorial.

Gentamicina intratimpânica

Para casos unilaterais refratários, a gentamicina intratimpânica realiza ablação química parcial ou total da função vestibular do ouvido afetado. Controla a vertigem em alta proporção de casos, mas carrega risco de piora da perda auditiva — risco que deve ser considerado individualmente, conforme destaca a CPG.

Estágios avançados

Em pacientes com Ménière avançado e perda auditiva severa a profunda, o implante coclear pode ser considerado como opção para reabilitação auditiva, conforme a CPG AAO-HNS 2020. A cirurgia do saco endolinfático é mencionada na literatura, porém a CPG reconhece controvérsia sobre sua eficácia e não a inclui como recomendação de forte grau de evidência.

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Perguntas Frequentes sobre Doença de Ménière

Qual a diferença entre Ménière Definitiva e Ménière Provável?

A distinção é estabelecida pelos critérios da Sociedade Bárány (2015). Ménière Definitiva requer documentação audiométrica formal de perda auditiva neurossensorial nas baixas e médias frequências (250–2000 Hz), além de pelo menos dois episódios de vertigem rotatória com duração de 20 minutos a 12 horas. Ménière Provável abrange casos com sintomas auriculares subjetivos (zumbido ou plenitude) e episódios de vertigem, porém sem audiometria confirmando a perda auditiva — o que implica investigação complementar.

Quais exames confirmam o diagnóstico de doença de Ménière?

Não existe exame isolado que confirme o diagnóstico de Ménière — o diagnóstico é clínico, baseado nos critérios da Sociedade Bárány. A audiometria tonal e vocal é obrigatória para documentar a perda auditiva neurossensorial nas frequências graves, critério indispensável para Ménière Definitiva. Exames vestibulares (VENG, VEMP) e ressonância magnética do osso temporal integram o workup para exclusão de outras condições, conforme a Clinical Practice Guideline da AAO-HNS (2020).

A restrição de sal (dieta hipossódica) controla os sintomas de Ménière?

A dieta hipossódica é classificada pela CPG AAO-HNS (2020) como opção de tratamento inicial, com base em estudos observacionais. A evidência disponível é de qualidade metodológica limitada, porém a medida é amplamente adotada na prática clínica em razão do perfil de segurança e da plausibilidade fisiopatológica — redução do volume de endolinfa pela menor retenção de sódio. O impacto individual varia e a adesão à restrição alimentar constitui fator relevante para a resposta clínica.

O que é corticosteróide intratimpânico e quando é indicado no Ménière?

O corticosteróide intratimpânico consiste na aplicação de dexametasona ou metilprednisolona diretamente na orelha média por via transtimpânica, em procedimento ambulatorial. A medicação permeia a janela redonda e atinge o ouvido interno. A CPG AAO-HNS (2020) classifica esse procedimento como opção para o controle da vertigem refratária às medidas conservadoras (dieta e diuréticos). O perfil de segurança auditiva é superior ao da gentamicina intratimpânica.

A perda auditiva da doença de Ménière é permanente?

Nas fases iniciais da doença, a perda auditiva é flutuante — melhora nos períodos sem crises e piora durante os episódios. Com a progressão da doença ao longo dos anos, a perda auditiva tende à estabilização em grau fixo, podendo evoluir para perda moderada a severa nas frequências graves e, posteriormente, envolver também as frequências agudas. O monitoramento audiométrico periódico é parte do acompanhamento de pacientes com Ménière, conforme recomendado pela CPG AAO-HNS (2020).

Dr. Lucas de Azeredo Zambon
Médico Otorrinolaringologista em Curitiba
CRM-PR 31209 | RQE 16825

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