A polissonografia é o exame de referência para o diagnóstico dos distúrbios respiratórios do sono, em particular a síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS). Diferentemente de exames de imagem ou laboratoriais convencionais, ela não produz uma fotografia estática do organismo: registra, de forma contínua e simultânea, múltiplas variáveis fisiológicas ao longo de toda uma noite de sono — desde a atividade elétrica cerebral até o padrão respiratório e a saturação periférica de oxigênio.
Segundo as diretrizes da American Academy of Sleep Medicine (AASM, 2017), a polissonografia do tipo 1, realizada em laboratório com supervisão técnica durante a noite inteira, constitui o padrão-ouro diagnóstico para a SAOS em adultos. Análise publicada no The Lancet Respiratory Medicine (Benjafield et al., 2019) estima que 80% a 90% dos casos de SAOS permanecem sem diagnóstico estabelecido — dado que reflete, em parte, o acesso limitado a exames de qualidade diagnóstica suficiente.
Polissonografia: Resumo do Exame
| O que é: | Registro contínuo de múltiplos parâmetros fisiológicos durante o sono (cérebro, respiração, oxigenação, posição, músculos) |
| Tipo 1 (laboratorial): | Padrão-ouro diagnóstico — realizada em laboratório com supervisão; mede estágios do sono via EEG |
| Tipo 3 (HSAT domiciliar): | Poligrafia respiratória em casa — sem EEG; indicada em casos selecionados de alta probabilidade pré-teste |
| Principal resultado: | IAH (Índice de Apneia-Hipopneia) — número de eventos respiratórios por hora de sono |
| Gravidade SAOS: | Leve: IAH 5-14 / Moderada: IAH 15-29 / Grave: IAH ≥30 eventos por hora |
| Duração: | Noite inteira — mínimo 6 horas de registro para validade diagnóstica adequada |
O que é monitorado durante a polissonografia
A polissonografia laboratorial tipo 1 registra simultaneamente um conjunto amplo de variáveis fisiológicas. Essa simultaneidade é o que permite ao médico especialista em medicina do sono interpretar as interações entre elas — identificando, por exemplo, se uma queda na oxigenação está ligada a um evento respiratório real ou a uma mudança de estágio do sono.
Parâmetros neurológicos e de sono
O eletroencefalograma (EEG) registra a atividade elétrica cerebral por meio de eletrodos fixados no couro cabeludo. É o parâmetro que permite classificar o sono em seus estágios: N1 (sono superficial), N2 (sono estabelecido), N3 (sono profundo de ondas lentas) e sono REM (movimentos oculares rápidos). A classificação dos estágios ao longo da noite é fundamental para calcular o tempo real de sono — denominador do IAH — e para avaliar a arquitetura do sono.
O eletrooculograma (EOG) registra os movimentos oculares, sendo essencial para distinguir o sono REM do sono não-REM. O eletromiograma mentoniano (EMG de mento) avalia o tônus muscular do queixo, que cai na transição para o sono REM — sinal adicional de reconhecimento desse estágio. O EMG tibial bilateral rastreia movimentos periódicos de membros (síndrome das pernas inquietas e PLMD), que podem coexistir com a SAOS ou simular microdespertares.
Parâmetros respiratórios
O fluxo de ar é registrado por meio de cânula de pressão nasal e termístor oronasal — os dois sensores em conjunto permitem classificar os eventos como apneias (ausência completa de fluxo) ou hipopneias (redução parcial de fluxo associada a queda de oxigenação ou microdespertar). Os cintos torácico e abdominal medem o esforço respiratório: sua presença durante um evento de ausência de fluxo caracteriza a apneia como obstrutiva (há esforço, mas a via aérea está bloqueada); a ausência de esforço caracteriza a apneia como central.
A oximetria de pulso contínua registra a saturação periférica de oxigênio (SpO2) ao longo de toda a noite. Eventos respiratórios produzem quedas características na SpO2 — denominadas dessaturações. O microfone laríngeo registra o ronco, permitindo avaliar sua cronologia em relação aos eventos respiratórios.
Como é calculado o IAH — Índice de Apneia-Hipopneia
O IAH é o principal parâmetro de resultado da polissonografia para o diagnóstico e estadiamento da SAOS. Ele é calculado dividindo o número total de apneias e hipopneias registradas pelo tempo total de sono em horas — não pelo tempo total de registro. Essa distinção é clinicamente importante: se o paciente demorou a adormecer ou acordou no meio da noite, o denominador é menor, e o IAH reflete com mais precisão a densidade de eventos durante o sono efetivo.
De acordo com as diretrizes da AASM (2017), o diagnóstico de SAOS em adultos é estabelecido quando o IAH é igual ou superior a 5 eventos por hora na presença de pelo menos um sintoma qualificador (sonolência diurna, fadiga crônica, ronco, apneias observadas, despertares com engasgo, hipertensão arterial, entre outros), ou quando o IAH é igual ou superior a 15 eventos por hora independentemente de sintomas. A gravidade é classificada em três categorias: leve (IAH entre 5 e 14), moderada (IAH entre 15 e 29) e grave (IAH igual ou superior a 30 eventos por hora).
Outros parâmetros importantes além do IAH
O IAH é o parâmetro mais amplamente utilizado, mas a polissonografia fornece informações diagnósticas adicionais que enriquecem a interpretação clínica. O nadir de SpO2 representa o menor valor de saturação de oxigênio registrado durante a noite — valores abaixo de 80% em adultos indicam hipóxia intermitente importante, mesmo quando o IAH moderado está na faixa limítrofe.
O T90 é o percentual do tempo total de sono em que a SpO2 permaneceu abaixo de 90%. Esse parâmetro quantifica a carga total de hipóxia noturna de forma independente do IAH — pacientes com IAH moderado mas T90 elevado têm carga biológica de hipóxia potencialmente mais relevante do que o número de eventos isolado sugere. A eficiência do sono (percentual do tempo de cama em que o paciente dormiu efetivamente) e a distribuição dos estágios (quanto tempo em N3 e REM) complementam a avaliação global da qualidade do sono.
O índice de microdespertares (número de arousal por hora de sono) avalia a fragmentação do sono independentemente dos eventos respiratórios — contribui para explicar a sonolência diurna em casos com IAH relativamente baixo mas microdespertares frequentes por outras causas.
Diferença entre polissonografia laboratorial e poligrafia domiciliar (HSAT)
A poligrafia respiratória domiciliar — também chamada de HSAT (Home Sleep Apnea Test) ou polissonografia tipo 3 — é uma versão simplificada do exame que pode ser realizada na residência do paciente. Diferente da polissonografia laboratorial tipo 1, a HSAT não inclui EEG — ou seja, não mede estágios do sono. Isso tem uma consequência metodológica direta: o IAH calculado pelo HSAT usa como denominador o tempo total de registro (tempo com o aparelho ligado), e não o tempo real de sono.
Como o paciente geralmente fica com o aparelho por mais tempo do que efetivamente dorme, o denominador da HSAT é maior — o que pode resultar na subestimação do IAH real. Por isso, as diretrizes da AASM (2017) recomendam a HSAT apenas para adultos com alta probabilidade pré-teste de SAOS moderada a grave e sem comorbidades cardiovasculares ou respiratórias significativas (como insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica ou suspeita de hipoventilação). Em qualquer desses cenários, a polissonografia laboratorial tipo 1 é indicada diretamente.
Importante: quando a HSAT resulta em valor de IAH negativo ou limítrofe em paciente com alta suspeita clínica, as diretrizes indicam que o resultado não exclui a SAOS — e a polissonografia laboratorial deve ser realizada. A HSAT negativa não equivale à ausência de doença quando o contexto clínico for sugestivo.
O que acontece durante a noite do exame
Na polissonografia tipo 1, o paciente chega ao laboratório do sono à noite — habitualmente entre 20h e 22h — e passa por uma sessão de preparação em que os eletrodos e sensores são fixados. A fixação é realizada por técnico especializado e não é dolorosa. O número de eletrodos e sensores varia conforme o tipo de exame, mas em uma polissonografia diagnóstica completa há habitualmente entre 20 e 25 componentes aplicados — cabeça, face, tórax, abdômen, pernas e dedo.
Após a preparação, o paciente dorme normalmente. Um técnico monitora os registros em tempo real a partir de uma sala adjacente, podendo intervir para ajustar eletrodos soltos ou verificar artefatos. O exame é registrado digitalmente e a leitura (scoring) é realizada pelo especialista em medicina do sono na manhã seguinte. O paciente acorda no horário habitual, os sensores são removidos e o exame é encerrado.
Como o resultado da polissonografia é interpretado
O laudo da polissonografia não se resume ao IAH. O especialista considera a totalidade dos parâmetros registrados para chegar ao diagnóstico: a arquitetura do sono, a distribuição do IAH entre sono REM e sono não-REM (SAOS predominante em REM tem perfil clínico distinto), o perfil positional (eventos mais frequentes em decúbito dorsal vs. lateral), o nadir e o T90, e a presença de arritmias cardíacas durante os eventos.
O relatório identifica se o diagnóstico de SAOS é confirmado, qual sua gravidade e quais características clínicas adicionais foram detectadas. Esse conjunto de informações orienta não apenas o diagnóstico, mas também a escolha do tratamento mais adequado — incluindo a titulação de pressão de CPAP quando indicado, as considerações sobre posicionamento e a necessidade de avaliações complementares. O guia completo sobre diagnóstico e tratamento está disponível em ronco e apneia do sono.
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Perguntas Frequentes sobre a Polissonografia
A polissonografia domiciliar é equivalente à laboratorial?
Não são equivalentes. A polissonografia laboratorial tipo 1 é o padrão-ouro diagnóstico para SAOS segundo as diretrizes da AASM (2017): inclui EEG (eletroencefalograma) que permite medir os estágios reais do sono e calcular o IAH com base no tempo efetivo de sono. A poligrafia domiciliar (HSAT, tipo 3) não inclui EEG — usa o tempo total de registro como denominador, o que pode subestimar o IAH real. A HSAT é aceitável para casos selecionados de adultos com alta probabilidade de SAOS moderada-grave e sem comorbidades cardiovasculares ou respiratórias significativas. Em qualquer situação de comorbidade relevante ou quando a HSAT resultar negativa com alta suspeita clínica, a polissonografia laboratorial é a indicação correta.
O que significa IAH 5, 15 ou 30?
O IAH (Índice de Apneia-Hipopneia) representa o número médio de eventos respiratórios — apneias e hipopneias — por hora de sono. De acordo com as diretrizes da AASM (2017): IAH entre 5 e 14 eventos por hora corresponde a SAOS leve (quando acompanhado de sintomas qualificadores); IAH entre 15 e 29 eventos por hora corresponde a SAOS moderada; IAH igual ou superior a 30 eventos por hora corresponde a SAOS grave. Um IAH inferior a 5 em adulto sem sintomas é considerado dentro da normalidade. O diagnóstico de SAOS leve requer a presença de pelo menos um sintoma qualificador (sonolência, fadiga, ronco, apneias observadas, entre outros); já o diagnóstico com IAH maior ou igual a 15 pode ser firmado mesmo na ausência de sintomas relatados.
É possível dormir normalmente durante a polissonografia?
A maioria dos pacientes consegue dormir durante a polissonografia, embora a qualidade do sono na primeira noite em laboratório possa ser ligeiramente diferente do habitual — fenômeno conhecido como “efeito da primeira noite”. Os sensores são fixados na superfície da pele e couro cabeludo e, embora o número de eletrodos seja considerável, não impedem o movimento nem causam dor. Para o diagnóstico da SAOS, o exame exige um tempo mínimo de sono efetivo — habitualmente ao menos duas horas de sono registrado são necessárias para uma análise minimamente válida, e a noite completa é o padrão. Pacientes que tomam medicações habituais para dormir devem informar ao médico solicitante para avaliar se há necessidade de ajuste antes do exame.
O que é o T90 no laudo da polissonografia?
O T90 representa o percentual do tempo total de sono em que a saturação de oxigênio (SpO2) permaneceu abaixo de 90%. É um parâmetro que quantifica a carga de hipóxia noturna — ou seja, quanto tempo o organismo ficou exposto a níveis reduzidos de oxigênio durante o sono. O T90 complementa o IAH: dois pacientes com o mesmo IAH podem ter T90 muito diferentes, dependendo da intensidade e duração das dessaturações. Um T90 elevado indica que a SAOS está produzindo impacto biológico significativo de hipóxia intermitente, independentemente do número de eventos por hora. O nadir de SpO2 (menor valor registrado na noite) é outro parâmetro relacionado que indica a profundidade máxima das quedas de oxigenação.
Polissonografia diagnóstica é diferente de polissonografia de titulação?
Sim. A polissonografia diagnóstica tem como objetivo confirmar ou excluir o diagnóstico de distúrbios do sono — incluindo SAOS — e determinar a gravidade. A polissonografia de titulação é realizada após o diagnóstico de SAOS e tem como objetivo determinar a pressão ideal do CPAP para aquele paciente específico: o técnico ajusta progressivamente a pressão do aparelho ao longo da noite até encontrar o nível que elimina os eventos respiratórios em todos os estágios de sono e posições. Existe ainda a polissonografia split-night, em que a primeira metade da noite serve para diagnóstico e a segunda metade para titulação — um protocolo válido quando o IAH for suficientemente elevado na fase diagnóstica. O tipo de exame indicado depende da avaliação clínica prévia.

